Seo Jerônimo era um sujeito pacato. Negro e grande, bem negro e bem grande. Andava vagarosamente, na verdade calmamente. Calmo e vagar são coisas bem distintas, pois a distancia de um ponto a outro se mede pela paciência e não pela velocidade, afinal a distância é sempre mais ou menos a mesma dependendo do caminho (e o que importa é onde vais).
Seo Jerônimo andava com o auxílio de uma bengala; calça azul, camisa clara lisa ou listrada,sempre em tom azul também, cinto e chinelo (a).
Sempre calado, sua expressão transmitia paz. Seu olhar era direto e quando ele olhava em nossos olhos, parecia estar ouvindo o que queríamos dizer. Não; não invadia nossas mentes. Apenas estava lá; olhando nossos olhos e escutando nossas palavras, por mais que não a disséssemos. Estava lá para ouvir, com os olhos.
Embora não fosse mudo, eu nunca ouvi a sua voz; quer dizer, nunca ouvi a voz da sua boca!
Seo Jerônimo foi vizinho nosso. No quintal de sua casa, morava a benzedeira do quarteirão, dona Clarice, ou a Dona Benzedeira como era conhecida.
Freqüentei bastante a casa da Benzedeira. Fui a 1º vez por um motivo óbvio (e dá-lhe arruda). Depois fui outras vezes por outros motivos também óbvios (e dá-lhe arruda). Ou era eu a ser benzido, ou outras crianças que minha mãe arregimentava.
Também no quintal do Seo Jerônimo tinha couve, espinafre e jiló.
...
Jiló frito com pão, jiló frito, espinafre refogado, espinafre com ovo, espinafre no arroz, na carne e até... até espinafre com jiló....
Seo Jerônimo foi embora há uns dez anos. Morreu como viveu, calado, calmo, silencioso.
Viveu 98 anos e sem nunca ter me dito uma só palavra me ensinou muitas coisas... Uma delas é que as pessoas vivem muito mais na nossa memória que na própria vida.
Outra coisa que aprendi foi a delícia do jiló e do espinafre.
InDEFINIÇÃO, AQUI VOCÊ NÃO ENCONTRA NADA
Maurício Ricci
- Maurício Ricci
- já orvalha algo, o sono é muito, a paz é pouca, e a morte continua lenta... e a vontade de viver...quem sabe?
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
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